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Entrevista com Dr. Sandro Palla: oclusão e postura, link que não existe

Dr. Sandro Palla é professor emérito da Universidade de Zurique e nos conta sobre a relação inexistente entre oclusão e postura. Confira abaixo a entrevista feita pelo jornalista Andrea Peren, do Italian Dental Journal:

Para Sandro Palla esta relação não é demonstrada e, portanto, não é apropriado realizar tratamentos com base nessa hipótese: o sistema postural "é muito mais complexo e não pode ser reduzido à mudança de posição de alguns dentes (“oclusão dentária”)".

"As terapias oclusais não podem ser aceitas como tratamentos para problemas posturais, assim como terapias posturais não podem ser usadas para tratar problemas oclusais". 


Para ele, um problema atual tanto na Itália, quanto em toda a Europa, é como evitar terapias não indicadas e focadas na suposta associação entre oclusão dentária e postura corporal que muitas vezes constitui a motivação de alguns profissionais que se propõem a tentar tratar problemas posturais por meio de alterações na oclusão dentária. Essas terapias são "invasivas e frequentemente causam problemas e dores crônicas difíceis de resolver".

Segundo Sandro Palla, é um erro justificar a terapia proposta com o “sucesso” da própria terapia: "se eu corrijo uma oclusão e uma dor ou outro problema relacionado à postura corporal desaparece eu concluo que a correção da oclusão foi etiologicamente correta. Mas o sucesso de uma dada terapia não pode levar por si só a esta conclusão, especialmente considerando-se que as terapias dos problemas posturais não são específicas, porque praticamente todos os estudos mostram que qualquer terapia que usamos traz alguma melhora na dor, lembrando que muitas vezes a dor no músculo esquelético se resolve espontaneamente e somente em uma parte muito pequena da população as dores se tornam crônicas.”.

Seriam, portanto, terapias inúteis, criadas para curar doenças que desapareceriam mesmo sem serem tratadas.

"Todas essas terapias têm algo em comum que explicam o seu sucesso e que nada tem a ver com a oclusão dentária: a remissão espontânea da dor, o efeito placebo e a informação e educação (sobre o problema) que é dada ao paciente".

Mas esse vínculo entre oclusão dentária e postura existe ou não? Palla afirma que mesmo os neurofisiologistas não sabem explicar exatamente como a postura do corpo é realmente regulada do ponto de vista neuromuscular.

"Sabemos, no entanto, que o sistema postural é um sistema integrado por informações provenientes do sistema visual, do sistema vestibular e do sistema de propriocepção, provenientes principalmente da musculatura dos receptores mecânicos da nuca, e também dos pés. O sistema postural é um sistema muito complexo que não pode ser reduzido à mudança de posição de alguns dentes”.

"A pergunta que devemos fazer a nós mesmos - diz o especialista em gnatologia - é se o sistema postural da mandíbula está integrado ou não ao sistema postural de todo o corpo. E não sabemos disso do ponto de vista neurobiológico. Sabemos que existem situações em que existe uma relação entre a posição mandibular e a função crânio-cervical; sabemos que em alguns pacientes diferentes tipos de oclusão - por ex. classe II, classe III - podem estar associados a diferentes posições da cabeça e também sabemos que em alguns pacientes com dor orofacial pode haver uma alteração na posição da musculatura da cabeça ou pescoço, mas essas relações não são inequívocas e não sabemos se têm relevância clínica concreta".


Na literatura, o professor Palla encontrou trabalhos que sustentam uma relação entre a posição da mandíbula e a posição do corpo e o mesmo número que mostra exatamente o oposto. “Uma das regras fundamentais para encontrar uma associação entre duas variáveis é que todos os trabalhos que observam um determinado relacionamento devem ter o mesmo resultado. Nesse contexto, isso não existe e significa não apenas que os trabalhos podem ter sido feitos de maneira diferente, mas também que uma associação pode não existir". Além disso, revisões sistemáticas da literatura mostram que a maioria dos trabalhos científicos realizados para investigar essa associação são de baixa qualidade.

Sandro Palla explica que um dos sistemas utilizados pelos posturologistas para medir alterações posturais em relação à oclusão dentária é a plataforma estabilométrica, que mede a oscilação corporal. Através da observação da amplitude dessas oscilações eles gostariam de medir se uma oclusão deve ou não ser corrigida. Mas todo corpo oscila e um dos problemas da estabilometria é que seu resultado "depende de muitos fatores, por ex, como o paciente fixa sua visão em um ponto de referência, do ritmo circadiano, da idade do sujeito, de razões cognitivas, emocionais, no estado de atenção ou ansiedade presente, e todos outros fatores que não são controlados durante os chamados testes de diagnóstico” e “isso explicaria a ampla heterogeneidade dos resultados”.

Além disso, ele declara que o grau de oscilação corporal que distingue o fisiológico do patológico nunca foi definido. Hoje a plataforma estabilométrica é usada como teste de diagnóstico para determinar se a oclusão dentária e a postura estão corretas ou não. "Um teste de diagnóstico, no entanto, deve ser válido, capaz de determinar se a doença existe ou não e permitir que todos os profissionais que usam o teste cheguem constantemente ao mesmo resultado". É a “especificidade” do teste de diagnóstico, ou melhor, sua capacidade de identificar com um bom grau de certeza (pelo menos 80%) o paciente saudável. Esse não seria o caso da plataforma estabilométrica, considerada por Sandro Palla "um teste sem validade do ponto de vista diagnóstico", usado pelos posturologistas para "realizar terapias caras que não necessariamente levam a uma melhoria" da condição do paciente.

A mensagem final não deixa espaço para mal-entendidos:

"Terapias oclusais não podem ser aceitas como terapia para tratar problemas posturais, assim como terapias posturais não podem ser usadas para tratar problemas oclusais".


Entrevista original aqui.
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